O
marco inicial surge com a escravatura do índio feita pelos primeiros
colonizadores no Brasil. Entretanto, o aborígene pelas suas
características de raça, de elemento da terra, conhecedor das matas,
espírito guerreiro exaltado, sem qualquer organização com um rudimento
de estrutura social, tendo a liberdade como apanágio de toda sua vida,
não aceitou o jugo da escravidão. Tinha, contudo, uma crença no espírito
e suas religiões. A influência do índio contribuiu para a formação da
Umbanda fornecendo elementos da sua mitologia e cultivos, tais quais, a Pajelança, o Toré, o Catimbó,
entre outros. Ademais, o caboclo, ancestral do índio que incorporava em
suas manifestações, foi consolidado na prática umbandista 2
O
colonizador, portanto, foi buscar nas terras africanas o elemento
negro, o qual oferecia condições mais favoráveis para os misteres da
lavoura, já conhecidos nas regiões de origem. Desse modo, houve um
circuito branco-índio-negro que contribuiu sobremaneira para o complexo
da formação brasileira, nele ressalvando, como uma constante a
religiosidade em vários aspectos. Na época das senzalas, os negros
escravos costumavam incorporar o que se conhece hoje como pretos-velhos,
antigos escravos, que ao se manifestarem, compartilhavam conselhos e
consolo aos escravos.
O
sincretismo católico, produto da simbiose dos cultos de escravo e
escravocratas no Brasil, chegou a tal ponto que se cultiva um orixá com
nome e imagem do santo católico, não se podendo diferenciar em certas
exteriorizações onde começa um onde termina o outro. São flagrantes os
casos de São Jorge, Ogum, Nosso Senhor do Bonfim, Oxalá, São Cosme e São Damião, Ibeji, eSanta Bárbara, Iansã.
Não raro, muitos chefes de terreiro mandam rezar missas e se declaram
também católicos, além de haver um grande número de praticantes que
frequentam as duas religiões. Houve, portanto, uma consolidação do santo
católico, admitido já sob o aspecto de espírito superior, de guia-chefe
ou como orixá, enquanto os candomblés procuraram mais se distanciar do
sincretismo e não aceitar as imagens.
O primeiro relato histórico, segundo Cavalcanti Bandeira, cabe a Nina Rodrigues, falecido em 1906, quando já estava quase pronta a impressão do seu livro Os africanos no Brasil, referente aos estudos feitos entre 1890 e 1905, nos quais consta a descrição de um ritual praticado na Bahia, o mais semelhante da Umbanda atual, que é o seguinte:
Entre
os casos que poderíamos citar, tomamos por sua importância à pastoral
de um Prelado Brasileiro ilustre a descrição eloquentíssima do Cabula,
por ele estudada, que mais não é do que uma instituição religiosa
africana sob vestes católicas.
Diz d. João Corrêa Nery:
A Cabula:
Houve alguém que disse ser grande e mais prejudicial do que pensamos, a
influência exercida pelos africanos sobre os brasileiros. Parece mesmo
que muito se tem escrito nesse sentido. Em certa região de nossa
Diocese, tivemos, em nossa última excursão, oportunidade de observar a
verdade desse asserto. Encontramos três freguesias largamente minadas
por uma seita misteriosa que nos parece de origem africana. Nossa
desconfiança mais se acentuou, quando nos asseveraram que antes da
libertação dos escravos, tais cerimônias só se praticavam entre os
pretos e mui reservadamente. Depois da lei de 13 de maio, porém,
generalizou-se a seita, tendo chegado, entre as freguesias, a haver para
mais de 8.000 pessoas iniciadas. Bem que agora esteja privada dos
elementos mais importantes, que infelizmente possuiu outrora, ainda
encontramos crescido número de adeptos. O tom misterioso e tímido com
que nos falavam a seu respeito e a notícia da grande quantidade de
iniciados ainda existentes, nos levaram, não só a procurar do púlpito
invectivar essa tremenda anomalia, como também a tomar algumas notas que
oferecemos à consideração e ao estudo dos curiosos. Graças a Deus nosso
trabalho não foi inútil. Tivemos a "consolação" de ver centenas de
cabulistas abandonarem os campos inimigos e voltarem novamente a N. S.
Jesus Cristo, ao mesmo que tempo que, de muito bom grado, nos forneciam
informações sobre a natureza, fins da associação que pertenciam. A nosso
ver a Cabula é semelhante ao Espiritismo e à Maçonaria, reduzidos a
proporções para a capacidade africana e outras do mesmo grau. Em vez de
sessão, a reunião dos cabulistas tem o nome de mesa. O chefe de mesa é
chamado de embanda e é secundado nos trabalhos por outros chamados
cambones.
Pensa-se que a expressão embanda possa ser uma corruptela do termo Umbanda ou Quimbanda, mas de qualquer modo demonstra a antiguidade do ritual na Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro, já no século XIX, onde teve a linha mestra de uma de suas origens sob certos aspectos.
Na
descrição do ritual cabulista é identificado o bater das palmas, as
vestes brancas, a disposição das velas em sentido cabalístico como nos
riscados, a engira, hoje gira, o modo de aceitar um novo membro do corpo
de médiuns da casa, em alguns a iniciação dos profitentes do culto, a
chegada do santé que é o santo como hoje se diz, a marcação de pontos,
além do cambone, o chamado assistente cambono.
Uma referência com outra data precisa se encontra no livro Religiões Negras, de Edison Carneiro, 1963, em que surge à tona o nome Umbanda ao referir: "nos candomblés de caboclo, consegui registrar as impressões umbanda e embanda, sacerdote do radical mbanda: Ké ké mim ké umbanda. Todo mundo mim ké Umbanda."
De acordo com Cavalcanti Bandeira, Edison Carneiro, em 1933, teria estado na Bahia para fazer essa verificação. Assim, teve a primazia de fixar num livro brasileiro a palavra Umbanda, sem qualquer alteração, com essa grafia, em relação a um fato no culto que estudou naquele estado.
Pode ser fixado o ano de 1905 para a Guanabara, como marco, quando João do Rio publicou as suas reportagens enfeixadas depois no livroReligiões do Rio,
onde aprecia e relata todos os cultos, seitas e religiões existentes na
época e por ele vistos, não se referindo ao nome Umbanda que, embora
conhecido e usado nesse período ao que parece, não tinha galgado a
evidência e nem definia um culto de largas proporções. Entretanto, sua
prática no Rio de Janeiro remonta ao tempo do Império, quando na Serra
dos Pretos Forros, no Lins de Vasconcelos, atual Estrada Grajaú-Jacarepaguá,
pontificavam diversas casas de culto, cada uma dentro de uma linha
tradicional africanista. Já no tempo da República se achavam espalhadas
pelos diversos bairros, porém com a característica afro-brasileira bem
nítida.
Sobressaíam-se
os rituais de Angola, do Congo, de Guiné, Moçambique, Cabinda, Monjolo,
Cassange, de Rebolo, Cabula, Muçurumi, como a Linha das Almas, Linha do Mar, Linha de Mina, e as chamadas Linhas Cruzadas, bem como a de Nagô.
Começou a fusão praticamente, depois da Luta dos Ogãs, na década de 1910 a 1920,
pois os baianos que até então não se entrosavam nas cultuações,
seguindo a tradição nagô dos candomblés (as macumbas como eram
chamadas), foram aos poucos convivendo no conjunto religioso. Embora
predominasse o culto de Angola, tinha uma apresentação distanciada da
rigidez do misticismo baiano, como o Muçurumi do Rio de Janeiro, e os
terreiros eram mais conhecidos como bandas ou pelo nome das entidades, ou dos seus dirigentes. Assim, muitos já haviam surgido no Morro do Castelo, de Santo Antônio, na Mangueira e de Morro de São Carlos, entre outros.
No conjunto de cultos bantos, no Rio de Janeiro, o nome Umbanda foi mais preponderante no decênio de 1920 a 1930,
concorrendo para isso uma aglutinação pelos recessos motivados pelas
perseguições havidas dos governos, pois, nessa época apenas se favorecia
ao kardecismo. Mesmo assim, muitos centros foram surgindo, como por
exemplo, a Tenda Espírita Mirim, fundada a13 de outubro de 1924,
praticando o ritual de Umbanda, sendo o nome comum de Tenda Espírita,
que usavam os centros praticantes desse ritual. Na época não havia
liberdade religiosa. Todas as religiões que apontavam semelhanças com
rituais africanos eram perseguidas, os terreiros destruídos e os
praticantes presos. Entre os inúmeros episódios desse tipo, destacou-se,
por exemplo, o da chamada Quebra de Xangô, em Maceió, no estado de Alagoas, a 2 de fevereiro de 1912.3 . Em uma ação organizada pela Liga dos Republicanos Combatentes, os mais importantes terreiros de Xangô foram
destruídos na capital alagoana, tendo pais de santo e religiosos sido
espancados e imagens de culto destruídas. A ação teve como um de seus
líderes o ex-governador Fernandes Lima, e visou atingir o então governador Euclides Malta, conhecido por sua amizade com líderes de religiões afro-brasileiras.
Sales, citando Arthur Ramos, diz que o autor chama esse novo produto, a Umbanda, de jeje-nagô-mussulmi-banto-caboclo-espírita-católico.4 Para Prandi5 e Oliveira6 ,
a Umbanda deriva da macumba carioca, e surge a partir da inserção de
kardecistas insatisfeitos com a ortodoxia que não permitia a
manifestação de caboclos e preto-velhos por serem considerados
"espíritos atrasados". Ambos os autores a reconhecem como religião
brasileira, surgida nas primeiras décadas do séc. XX, um período de
urbanização e industrialização, o que segundo os mesmos, propiciou e
contribuiu para sua formação.
No período de 1930 a 1940 a situação das tendas e terreiros melhorou bastante através da liberdade consentida e depois assegurada por lei, em 1934.
Também data desse ano o início do Cadastro Policial, quando eram
tiradas as licenças para as chamadas Festas Africanas, na então 4º
Delegacia Auxiliar, que também exigia licença para os incipientes
Terreiros de Umbanda.
Diamantino Fernandes Trindade relata em seu livro Umbanda e sua História que o início da expansão do Movimento Umbandista coincide com a subida ao poder de Getúlio Vargas, em 1930. Seu regime, de caráter autoritário, se solidificaria, em 1937, com a criação do chamado Estado Novo.
As primeiras lideranças da Umbanda foram, direta ou indiretamente,
ligadas ao regime. Alguns terreiros exibiam em suas paredes fotos do
ditador. Apesar do apoio ao governo, os praticantes ainda sofreram
perseguições e repressões que durariam até 1945. Uma lei de 1934 enquadrava a Umbanda, o Kardecismo, as Religiões Afro-Brasileiras, a Maçonaria, entre outras, na seção especial de Costumes e Diversões do Departamento de Tóxicos e Mistificações do Rio de Janeiro. Trata-se do mesmo departamento que lidava com álcool, drogas, jogo e prostituição. A lei vigorou até 1964.
Os cultos eram vítimas da extorsão em troca de proteção da polícia,
prática atualmente comum nos jogos de azar. Quando contrariada, a
autoridade se resguardava na justificativa de que a macumba dava cobertura a tipos considerados comunistas. De acordo com relatos da época, Ogum, o orixá sincretizado comSão Jorge, era identificado na década de 1930, com o Cavaleiro Vermelho. Há relatos de que a perseguição do governo Washington Luís (1926 a 1930)
foi bastante intensa do que no governo seguinte de Vargas, pois este
último teria sido um frequentador assíduo dos cultos afro-brasileiros.
Pai Jaú, falecido em 1989, ex-atleta de futebol do Corinthians,
declarou certa feita numa reunião do Superior Órgão de Umbanda do
Estado de São Paulo (SOUESP), que várias vezes havia sido preso e sua
libertação ocorrera por ordem direta de Vargas com quem mantinha
relações cordiais.
Muitos
terreiros surgiram do kardecismo ou foram fundados por espíritas que
recebiam caboclos e pretos-velhos, especialmente foi marcante a
influência da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, a qual funcionava no bairro de Neves, em São Gonçalo, fundada a 16 de novembro de 1908, seguindo inicialmente o Espiritismo codificado por Allan Kardec.
Em 1908, o médium Zélio Fernandino de Moraes, sob a influência do Caboclo das Sete Encruzilhadas,7 recebeu a incumbência de fundar sete centros, os quais foram instalados na cidade do Rio de Janeiro, entre 1930 e 1937, com os nomes de Tenda Espírita. Ressalta-se que tenda, na época, eram as casas que funcionavam em sobrados, comuns na cidade, enquanto o termoterreiro era aplicado aos centros que funcionavam no mesmo plano da rua.
As sete tendas e seus responsáveis:
- Tenda Espírita São Pedro - com José Meireles, em um sobrado da Praça XV de Novembro, Centro, fundada a 5 de março de 1935 e em funcionamento até 2012 na rua Visconde de Vila Isabel, 39, Vila Isabel.
- Tenda Espírita Nossa Sra. da Guia - com Durval de Souza, na rua Camerino, 59, Centro. Fundada a 8 de setembro de 1927.
- Tenda Espírita Nossa Sra. da Conceição - com Antônio Eliezer Leal de Souza, sem sede fixa. Fundada a 18 de janeiro de 1918.
- Tenda Espírita São Jerônimo - com José Álvares Pessoa (Capitão Pessoa), na rua Visconde de Itaboraí, 8, Centro. Fundada a 9 de janeiro de 1935.
- Tenda Espírita São Jorge - com João Severino Ramos, na rua Dom Gerardo, 45, Praça Mauá. Fundada a 15 de fevereiro de 1935. Casa de Ogum Timbiri. Foi a primeira das tendas de Zélio de Moraes a promover sessões de exu.
- Tenda Espírita Santa Bárbara - com João Aguiar, sem sede fixa. Em outubro de 1952.
- Tenda Espírita Oxalá - com Paulo Lavois, na atual Av. Presidente Vargas, 2567, Centro. Fundada a 11 de novembro de 1939.
Posteriormente a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade passou a funcionar na cidade do Rio de Janeiro, na Praça Duque de Caxias, 231, e em 1960, na rua Dom Gerardo, 51. Atualmente se localiza na Cabana do Pai Antonio, em Boca do Mato, distrito de Cachoeiras de Macacu sob a direção da neta de Zélio, Lygia de Moraes Cunha. Das sete tendas, apenas duas se encontram em funcionamento até 2012. A Tenda Espírita São Jorge está sediada à rua Senador Nabuco, 122, em Vila Isabel com sessões às segundas-feiras. Já a Tenda Espírita Oxalá se localiza à rua Ambiré Cavalcanti, 298, no bairro Rio Comprido.
No período ainda surgiram vários centros como a Tenda Espírita Nossa Senhora do Rosário, Cabana Espírita Senhor do Bonfim (6 de setembro de 1939, ainda em funcionamento no bairro de Todos os Santos), Tenda Espírita Fé e Humildade (em setembro de 1941),Cabana Pai Joaquim de Luanda (Méier, 28 de julho de 1937), Tenda Espírita Humildade e Caridade, (em setembro de 1941), Centro Espírita Caridade de Jesus, em Vila Isabel, em 1932, Cabana Pai Thomé do Senhor do Bonfim (em setembro de 1941), Centro Espírita Religioso São João Batista (em setembro de 1941), Tenda Africana São Sebastião, Centro Espírita Caminheiros da Verdade (em 4 de março de 1932, no Engenho de Dentro), Grupo Espírita Humildes de Jesus (em 12 de dezembro de 1928) e muitos outros, desde a Praça Onze e Rio Comprido até os subúrbios mais distantes, especialmente nos municípios limítrofes do Rio de Janeiro.
A 26 de agosto de 1939 foi fundada a Federação Espírita de Umbanda sediada à rua São Bento, 28, 1° andar, na Praça Mauá, sob a presidência de Eurico Lagden Moerbeck. O órgão, de 19 a 26 de outubro de 1941, promoveu o Primeiro Congresso Brasileiro de Espiritismo de Umbanda.
No encontro foi proposta a desafricanização da Umbanda com o intuito de
fuga da repressão policial. A comissão foi composta por Jayme Madruga,
Alfredo Antonio Rêgo e o escritor Diamantino Coelho Fernandes, membro da
Tenda Espírita Mirim8 . Como União Espiritualista Umbanda de Jesus (UEUJ), em 1944, teve papel preponderante na organização, edição e elaboração do livro O Culto de Umbanda em Face da Lei, entregue ao presidente Getúlio Vargas, no qual apresentava os anseios e direitos da comunidade religiosa perante a Constituição e a sociedade brasileira. Em 1947, seu nome foi alterado para União Espiritista de Umbanda do Brasil.
Foi a primeira entidade federativa do país a congregar os centros já
existentes. A União funciona atualmente à rua Conselheiro Agostinho, 52,
em Todos os Santos. Foi também a responsável pela criação do primeiro
periódico sobre o assunto, o Jornal de Umbanda, em 1947.
O
objetivo principal na época era o de reunir as diversas tendas, a
partir das sete primeiras, para uniformizar o culto umbandista,
estabelecer o uso do branco no vestuário, homogeneizar as diversas
classes participantes e as práticas ritualísticas de maneira
simplificada dentro das diretrizes doutrinárias preconizadas nas bases
estabelecidas, ao se criar estatutos e ordenamentos legais para evitar
as terríveis perseguições ao culto. Se filiaram, entre outras, a Tenda Espírita Beneficente Santa Luzia, através do irmão Frederico, a Cabana Espírita Senhor do Bonfim, por Manuel Floriano da Fonseca, a Cabana de Pai Joaquim de Luanda, por Márcia Justino, além da Tenda Mirim, fundada em 1924, pelo médium do Caboclo Mirim, Benjamin Gonçalves Figueiredo. A histórica casa deixou inúmeras filiais, além do Primado de Umbanda, criado em 1952,
compondo uma doutrinação disciplinar e hierárquica bastante
contundente. Inicialmente localizada à rua Sotero dos Reis, 101, na Praça da Bandeira, se transferiu para a avenida Marechal Rondon, 597, em São Francisco Xavier, em 1942.
Contava com vários colaboradores, entre os quais, o escritor Diamantino
Coelho Fernandes, o Comandante Cícero dos Santos e Olívio Novaes. Já a Casa Espírita Caminheiros da Verdade, criada a 4 de março de 1932,
e dirigida pelo Comendador João Carneiro de Almeida, se notabilizou
como uma das mais influentes no estado. Está situada à rua Comendador
João Carneiro de Almeida, 133, Engenho de Dentro, sob a liderança de Tarcizo Antonio Carneiro de Almeida.
A seguir foram criadas diversas tendas umbandistas, no dimensionamento doutrinário da Linha Branca, sob a orientação do Caboclo das Sete Encruzilhadas também em São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Pará, Alagoas e Bahia.
Não raro, Zélio de Moraes se fazia presente, ou enviava representantes à
organização e direção das novas tendas umbandistas. No território
brasileiro existem muitos templos que foram fundados direta ou
indiretamente pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, incluindo outros que
descendem dos originais. Um caso notório foi o do Tenente Joaquim Bentes
Monteiro que solicitou a sua transferência para Belém do Pará a fim de fundar e dirigir a Tenda Santo Expedito.
Em 1940, é fundada por W. W. da Matta e Silva, a Escola Iniciática da Corrente Astral do Aumbhandan, a Umbanda Esotérica, na Tenda Umbandista Oriental (T.U.O.), em Itacuruçá, no estado do Rio de Janeiro.
Apesar
do esforço inicial e ao longo da história por parte de autores, líderes
e do próprio Caboclo das Sete Encruzilhadas de codificar, dogmatizar e
unificar a ritualística da Umbanda, sempre foi evidente uma autonomia
dos terreiros no que tange à prática do culto. O dirigente, também
intitulado diretor espiritual, pai de santo, zelador ou sacerdote, em
conjunto com o guia-chefe da casa, é o responsável pela própria forma de
praticar a Umbanda de acordo com a sua formação, interesses e
influências diretas ou indiretas.
A
Umbanda pode ser considerada uma união de diferentes tradições
religiosas representadas pelos vários grupos étnicos e sociais
existentes no país, que são freqüentemente antagônicos. Contudo, os
umbandistas têm freqüentemente uma atitude ambígua em relação às
tradições afro-brasileiras, o que é refletido nas tendências
sócio-culturais dominantes na sociedade.
A
religião se originou na conjuntura de um período político bastante
tumultuado que assistiu, entre outros fenômenos, a emergência de
movimentos nacionalistas e fascistas. Esse desenrolar político culminou
na ditadura de 1937, com o chamado Estado Novo, de Getúlio Vargas. O período de grande nacionalismo foi marcado pelo começo de ideologia da democracia racial. Gilberto Freyre, em Casa Grande e Senzala (1933) era um de seus defensores9 .
Segundo esse pensamento, o igualitarismo racial e seus vários grupos
teriam tido igual importância na formação da civilização brasileira. De
acordo com Diana Brown, em Umbanda: Religion and Politics in Urban Brazil, de1994,
página 206, se criou uma falsa crença de que o preconceito racial não
existia no Brasil. Mas seus efeitos já se faziam sentir no fim dos anos 1920,
com a nacionalização e institucionalização da cultura afro-brasileira.
Práticas culturais, como o carnaval e as escolas de samba, que haviam
sido relegadas ao mais baixo status por causa de sua associação com os
negros foram então reconhecidas como componentes importantes da cultura
nacional. Os estudiosos brasileiros também começaram a se interessar
seriamente pela cultura afro-brasileira, que desde o início era vista de
forma exótica e folclórica. Nesse ínterim, a ditadura aboliu os
movimentos negros que lutavam contra a discriminação racial, a qual
continuaria profundamente enraizada na realidade social brasileira.
O Espiritismo, especialmente o pejorativamente chamado baixo espiritismo representado
pelas religiões afro-brasileiras, era ainda proibido por lei. Durante o
período da ditadura, em que ocorreu também a formação da Umbanda, a
perseguição às pessoas envolvidas se intensificou. Contudo, a repressão
era voltada aos praticantes do então baixo espiritismo, ou seja,
as religiões afro-brasileiras. Por conseguinte, os umbandistas, por
questão de sobrevivência, passaram a se identificar com o termo
espírita, usado apenas pelos espíritas kardecistas. Ao optarem por essa
denominação, os praticantes se associaram com o Kardecismo e com o então
chamado alto espiritismo. Portanto, o termo espírita foi
amplamente utilizado como fuga da repressão e ainda para dissociar os
praticantes das novas religiões de sua ascendência afro-brasileira, um
gesto que recorda o uso do sincretismo católico nos cultos
afro-brasileiros durante o período da escravatura10.
A
ideologia da democracia brasileira era legitimada e manifestada por uma
hegemonia branca. Nesse contexto houve a primeira tentativa de
legitimar a Umbanda como religião. A legitimação envolveu a
desafricanização e o embranquecimento da Umbanda. Em 1939,
alguns fundadores dos centros originais da Umbanda do Rio de Janeiro,
inclusive Zélio de Moraes, estabeleceram a primeira federação de
Umbanda, a União Espiritista de Umbanda do Brasil (UEUB).
A federação foi criada para dogmatizar, unificar, defender e organizar a
Umbanda como uma religião coerente e hegemônica e assim obter
legitimação social. Em 1941, a União promoveu o Primeiro Congresso de Espiritismo da Umbanda,
uma tentativa de definir e codificar a Umbanda como uma religião com
direitos próprios que uniria todas as religiões, raças e nacionalidades.
A conferência é ainda conhecida por promover maior dissociação com as
religiões afro-brasileiras. Os participantes ainda concordaram em
utilizar a obra de Allan Kardec como
a doutrina operante da Umbanda. Entretanto, os espíritos considerados
fundamentais, como os caboclos e o pretos-velhos ainda eram considerados
espíritos muito evoluídos. Os participantes se esforçaram durante o
encontro em legitimar a Umbanda como uma religião bastante evoluída.
Declarou-se que que existia como uma religião organizada há bilhões de
anos, e portanto estaria à frente de outras religiões11 .
No
esforço em legitimá-la como uma religião original e evoluída, os
participantes procuraram dissociá-la de suas raízes afro-brasileiras. A
origem da Umbanda foi então traçada no Oriente de onde, se dizia, teria se espalhado para a Lemúria,
um continente remoto e perdido, e daí para a África. No continente
africano a Umbanda degenerou em fetichismo. Dessa forma foi trazida para
o Brasil pelos escravos negros12 .
A influência africana da Umbanda não era negada, mas vista como
corrupção da tradição religiosa original, na sua fase anterior de
evolução. A Umbanda, teria ficado exposta ao barbarismo africano, na sua
forma vulgar dos costumes, praticada por povos de costumes rudes,
defeitos psicológicos e étnicos13 .
Outro jeito de sublinhar o caráter africano da Umbanda foi expresso no
reconhecimento de que ela se originou na África, mas na África Oriental (Egito), portanto, na parte mais ocidental e civilizada do continente14 .
Um
dos objetivos da conferência era o de traçar as raízes genuínas da
Umbanda no Oriente. A invenção de raízes orientais, somada à negação das
africanas, refletiu na definição do termo Umbanda, que se crê
geralmente derivado da África. Declarou-se que Umbanda seria oriundo do
sânscrito aum bhanda, termos que foram traduzidos como limitado no ilimitado, Princípio Divino, luz radiante, fonte de vida eterna e evolução constante15 .
Os participantes do congresso se esforçaram em associa-lá às tradições
religiosas esotéricas europeias e as novas correntes religiosas da Índia, representadas pela Vivekananda.
A
influência africana da Umbanda foi reconhecida como um mal necessário
que serviu meramente para explicar sua chegada e desenvolvimento no
Brasil. O Candomblé,
centralizado no nordeste do Brasil, era olhado como um estágio anterior
da Umbanda, que havia se desenvolvido no sudeste. O Candomblé, ainda
notabilizado pela barbárie dos rituais africanos, era assim associado
com a magia negra. A lavagem branca da origem da Umbanda era expressa em termos como Umbanda Pura, Umbanda Limpa, Umbanda Branca e Umbanda de Linha Branca associada àmagia branca. Os termos faziam oposição à magia negra,
associada ao mal. Ademais, criou-se uma espécie de divisão de
espíritos. A linha daqueles que se encontram à direita, os bons, e os da
esquerda, maus, representados pela magia negra. As únicas
instâncias de identificação positiva da influência africana da Umbanda
eram os pretos-velhos, considerados pessoas simples e humildes, mas
espíritos muito evoluídos. Já a África era tida como um continente
heroico e sofredor.
A
atitude dos participantes em relação à herança religiosa africana era
assim caracterizada pela ambiguidade. Elas eram positivas e negativas,
oscilando da tentativa de dissocia-los das tradições religiosas
africanas até sua atitude distintamente paternalista para com a África, a
quem classificavam com a imagem de humilde escrava. Os negros
brasileiros eram aceitos porque afinal tinham alma branca16 .
Em 1945, José Álvares Pessoa, conhecido como Capitão Pessoa, dirigente da Tenda Espírita São Jerônimo, obteve junto ao Congresso Nacionala
legalização da prática da Umbanda. Segundo ele, em entrevista Leal de
Souza, transcrita na página 439, do livro de Roger Bastide, As religiões africanas no Brasil,
a fundação da Umbanda foi decidida em Niterói (estado do Rio) há mais
de trinta anos, em uma macumba que ele visitava pela primeira vez. Até
ali, ele fora um espírita kardecista. O pai de santo investiu-o dos
poderes de presidente da Tenda de São Jerônimo, que deveria funcionar na
capital, e lhe disse que importava organizar a Umbanda como religião.
Em 1947, surgiu o Jornal de Umbanda,
que durante mais de duas décadas, foi o porta-voz doutrinário do culto
umbandista, tendo como colaboradores Cavalcanti Bandeira, Olívio Novaes,
J. Alves de Oliveira, W. W. da Matta e Silva, entre outros.
Em 1950, os defensores das práticas africanistas na Umbanda, liderados pelo tata ti inkice (sacerdote na etnia banto) Tancredo da Silva Pinto, relegados do primeiro congresso e da União Espiritista de Umbanda do Brasil, fundaram a Confederação Espírita Umbandista do Brasil, a qual existiu até 1967. Após a instauração do Regime Militar no país, a partir de 1964,
a entidade vivenciou dificuldades de relacionamento entre elementos da
sua administração. Tancredo, insatisfeito, desligou-se, vindo a
constituir com outros companheiros, em 20 de Janeiro de 1968, aCongregação Espírita Umbandista do Brasil (CEUB). Após o falecimento de seu presidente e fundador, em 1979,
seu braço-direito, Martinho Mendes Ferreira, assumiu a instituição, a
qual seria entregue a Fátima Damas, a atual presidente, antes de morrer.
É importante frisar que apesar das perseguições policiais, os
defensores do africanismo continuariam as suas práticas, ao adicionar
elementos, como o cavaquinho, e promover rodas de samba para iludir a
repressão policial. Tancredo, através de uma coluna semana no jornal O Dia, recomendava uma forma africana para os rituais. Ele conquistou grande liderança entre os mais humildes.
Com o intuito de divulgar os cultos afros, Tancredo criou as festas religiosas de Yemanjá, no Rio de Janeiro, a festa a Yaloxá, em Pampulha, Cruzandê, em Minas Gerais, a festa do Preto-Velho, em Inhoaíba, homenageando a grande yalorixá Mãe Senhora, na cidade do Rio de Janeiro, a festa de Xangô, em Pernambuco, além do evento Você sabe o que é Umbanda?, realizado no Estádio do Maracanã, na administração de Carlos Lacerda, e finalmente a festa da fusão do estado do Rio de Janeiro com a Guanabara, realizada no centro da Ponte Rio-Niterói.
Em 1956,
os representantes das duas correntes, superaram algumas divergências e
formaram uma coligação que reunia as principais federações do Rio de
Janeiro. A organização recebeu o nome de Colegiado Espírita do Cruzeiro do Sul e
tinha a União Espiritista de Umbanda do Brasil como principal
articuladora. Tancredo da Silva Pinto esteve presente e chegou a ser um
dos presidentes. Por conseguinte, em 1960, os umbandistas ganharam força e conseguiram eleger vários candidatos em alguns estados. Em 1958, o falecido Átila Nunes, conceituado radialista e dono do programa Melodias de terreiro, fora eleito no Rio de Janeiro.
Relata Diamantino Fernandes Trindade, que ainda na década de 1950, houve a penetração no Rio Grande do Sul, através de Moab Caldas, que chegou a ser eleito deputado estadual. Ocorreu ainda uma rápida expansão para o estado de São Paulo. Pai Jaú, Sebastião Costa e o Tenente Vereda, que participaram do Primeiro Congresso de Umbanda, em 1941, já haviam criado a Liga de São Jerônimo no ano seguinte. Em 1953,
foi registrada em cartório a primeira federação de São Paulo, a
Federação Umbandista do Estado de São Paulo (FUESP), fundada por Costa
Moura. Outras associações foram fundadas, tais quais, a União de Tendas
Espíritas de Umbanda do Estado de São Paulo (UTEUESP), fundada por Luis
Carlos de Moura Acciolli, o Primado de Umbanda, de Félix Nascente Pinto,
a Associação Paulista de Umbanda, de Demétrio Domingues. Em 1968,
a UTEUESP passou a registrar roças de Candomblé e mudou sua denominação
para UUTEUCESP (União de Tendas Espíritas de Umbanda e Candomblé do
Estado de São Paulo), sob a direção de Jamil Rachid. Em 1973, surgiu a FUGABC (Federação Umbandista do Grande ABC), dirigida por Ronaldo Linhares.
Em 1961, ocorreu o Primeiro Congresso Umbandista do Estado de São Paulo, organizado pelo General Nelson Braga Moreira. No mesmo ano aconteceu na Associação Brasileira de Imprensa(ABI) o Segundo Congresso Brasileiro de Umbanda,
no Rio de Janeiro, presidido por Henrique Landi Júnior, eleito pelas
comissões organizadoras, e secretariado pelo escritor João de Freitas.
Ao assumir a presidência, passou a coordenar os trabalhos das comissões e
reuniões preliminares em outros estados. Quando todas já estavam com
suas teses elaboradas, ocorreu noMaracanãzinho, a 28 de junho de 1961,
a festa de congraçamento, na qual compareceram cerca de quatro mil
médiuns uniformizados, além de grande público assistente. Cavalcanti
Bandeira apresentou a tese, aprovada, de que o vocábulo Umbanda é
oriundo da língua quimbundo e significa "arte de curar". Nesse congresso
o Hino da Umbanda foi oficialmente adotado em todo o Brasil em caráter oficial. Houvera sido composto por um cego, ainda na década de 1960,
chamado José Manoel Alves, que em busca de sua cura procurou o auxílio
do Caboclo das Sete Encruzilhadas. Mesmo não obtendo êxito, escreveu a
letra para mostrar que era possível vislumbrar o mundo e a religião à
sua maneira. Zélio de Moraes a apreciou tanto que decidiu apresentá-la
no Segundo Congresso. Já a melodia foi composta por Dalmo da Trindade
Reis17 .
De acordo com o escritor Diamantino Fernandes Trindade, em seu livro Umbanda Brasileira - Um século de história, de 2009: o Colegiado Espírita do Cruzeiro do Sul organizou o Segundo Congresso Nacional de Umbanda, em 1961,
no Rio de Janeiro. Um dos objetivos desse evento era fazer uma
avaliação das mudanças ocorridas no panorama umbandista nos vinte anos
que se passaram desde o primeiro evento, em 1941. O Congresso ocorreu no Maracanãzinho e
milhares de umbandistas estiveram presentes, incluindo dessa vez,
representantes de dez estados e vários políticos municipais e estaduais.
Esse evento foi organizado por Leopoldo Bettiol, Oswaldo Santos Lima e
Cavalcanti Bandeira. A comissão paulista foi a mais numerosa e
representativa, com a participação de Félix Nascente Pinto, General
Nélson Braga Moreira, Dr. Armando Quaresma e Dr. Estevão Monte Belo.
Neste congresso definiu-se a criação do Superior Órgão de Umbanda para
cada Estado, congregando as Federações. Apenas o estado de São Paulo
conseguiu criar o então chamado SOUESP (Superior Órgão de Umbanda do
Estado de São Paulo) marcando presença no congresso posterior. Também
nesse Congresso foi apresentada uma tese diferente da que havia sido
veiculada no primeiro sobre a “Interpretação histórica e etimológica do
vocábulo Umbanda”, tese apresentada por Cavalcanti Bandeira em
contraponto a tese de Diamantino Fernandes, delegado representante da
Tenda Mirim, que no Congresso de 1941 situava a palavra tendo origem em antigas civilizações e no sânscrito18 .
Na
oportunidade se constituiu o SOUESP (Superior Órgão de Umbanda do
Estado de São Paulo). Algumas discordâncias políticas fizeram com que
outras federações se unissem em torno do Tenente Hílton de Paiva
Tupinambá, em 1976,
e fundassem o SOUCESP (Supremo Órgão de Umbanda e Candomblé do Estado
de São Paulo) que se tornou forte oponente do antecessor.
Durante as décadas de 1960 e 1970 a
Umbanda atrai olhares curiosos do mundo inteiro e se torna manchete de
jornais e revistas. Muitos discos são lançados contendo os pontos
cantados.Manchete e Planeta são publicações que destinam sempre notícias ou estudos sobre a religião, cujo exotismo despertava a atenção das pessoas.
Em 1973, foi realizado novamente no Rio de Janeiro, de 15 a 21 de julho, no Estádio de São Januário, o Terceiro Congresso Brasileiro de Umbanda, sob o comando de Cavalcanti Bandeira. No evento o dia 15 de novembro foi
instituído como o "Dia Nacional da Umbanda", legitimando assim a
manifestação do Caboclo das Sete Encruzilhadas como fundador da religião
e Zélio de Moraes como seu pioneiro, dois anos após o seu desencarne.
Diamantino Fernandes Trindade relata a respeito em sua obra Umbanda Brasileira - Um século de história, de 2009: em
1973, realizou-se no Rio de Janeiro o Terceiro Congresso Nacional de
Umbanda. A revista Mundo de Umbanda, número 1, de 1973, publicada pelo
Primado de Umbanda, fazia referências às destemidas atuações de
Cavalcanti Bandeira e outros umbandistas para a realização do evento. A
revista citava: os umbandistas desejam consolidar o dia da Umbanda e
preservar os rituais comuns e afins, proclamando o desejo de congregarem
num colegiado nacional os órgãos associativos e federações estaduais, a
fim de evitar as distorções e os abusos que são cometidos em nome da
Umbanda. Segundo a revista, os temas propostos abordavam: Aspectos
doutrinários e filosóficos; sincretismo religioso; teologias e crenças;
moral e ética religiosas; práticas e rituais; iniciação e
desenvolvimento; organização religiosa; música dança e cânticos;
simbologia; aspectos administrativos; os cultos e a legislação oficial;
órgão nacional inter federativo; temas livres e teses sobre a Umbanda. O
Rio de Janeiro foi representado pelas mais importantes autoridades da
Umbanda. São Paulo foi representado pelo SOUESP, por meio de seu
presidente General Nelson Braga Moreira. Outros estados representados
foram: Paraná, Rio Grande do Sul, Piauí e Santa Catarina. Wheatstone
Pereira propôs a criação da Cartilha Umbandista e José Maria Bittencourt
apresentou um trabalho sobre Casamento e Batismo na Umbanda, ambos
aprovados por unanimidade. Nesse evento, a religião umbandista
afirmou-se como uma das que mais crescem no Brasil e uma força
significativa no campo das atividades sociais. Nessa época, diversos
terreiros contavam com escolas, creches, ambulatórios etc. Após o
Congresso foram fundadas onze novas federações, dentre elas a Associação
Paulista de Umbanda e a Federação de Centros Espíritas e de Umbanda do
Estado de São Paulo19 .
A 12 de setembro de 1977, no Rio de Janeiro, foi criado o Conselho Nacional Deliberativo de Umbanda (CONDU), estabelecido à rua Sá Viana, 69, no Grajaú,
sob a presidência do General Mauro Porto. Seu objetivo que era o de
agrupar as federações de Umbanda espalhadas pelo Brasil. O núcleo
inicial era composto por cinco grupos: Confederação Nacional Espírita
Umbandista dos Cultos Afro-brasileiros, Congregação Espírita Umbandista
do Brasil, União Espiritista de Umbanda do Brasil, Primado de Umbanda e Federação Nacional das Sociedades Religiosas de Umbanda. Depois outras entidades se agregaram. Chegou a reunir 46 associações. Contudo, no decorrer da década de 1980,
por conta da morte de dirigentes e a consequente extinção de várias
federações, a entidade perdeu força e encerrou suas atividades. Sua fase
de maior êxito ocorreu no decorrer da década de 1970 quando chegaram a integrar seu quadro o pesquisador e escritor José Beniste, a presidente e fundadora da Tenda de Umbanda Luz, Esperança, Fraternidade (TULEF), Lília Ribeiro, falecida em abril de 2004, o pai de santo e escritor, Ney Néri dos Santos, conhecido como Omolubá, o escritor Celso Rosa (Decelso da Congregação Religiosa Umbandista Brasileira, Loris Lugheri, da Cruzada Federativa de Umbanda de SP, o presidente daCongregação Espírita Umbandista do Brasil (CEUB), Martinho Mendes Ferreira, o campista José Raymundo de Carvalho, o presidente da Aliança Umbandista do Estado do Rio de Janeiro(ALUERJ),
Floriano Manoel da Fonseca, Evaldo Pina e ainda membros de fora do
estado do Rio de Janeiro, entre os quais, Carlos Alberto Dias Bellone (Confederação Umbandista do Paraná), Abrumolio Vainer (Círculo Umbandista do Brasil) (SP), Rosalvo da Cunha Leal (CNEUCAP – RJ), Asy Sgambato (Congregação Religiosa Umbandista Brasileira)
(RJ), José Vareda e Silva (SP), Raymundo Viriato Baptista Rodrigues
(AM), Guiomar Bussili (SP), Carlos Leal Rodrigues (PB), Marne Franco
Rosa (RS), Joaquim Brito de Carvalho (SP), Djalma Rodrigues da Rocha
(PI) e Flávio Nicolino (SC). Os arquivos do finado CONDU, que se
encontravam em poder de Lília Ribeiro, passaram às mãos de José Beniste,
o qual enfim os entregou aos cuidados de Fátima Damas, presidente da Congregação Espírita Umbandista do Brasil20 .
Durante a ditadura militar (1964-1985)
a Umbanda obteve reconhecimento oficial e legitimação, por conta do
projeto nacionalista. O regime diretamente apoiou a Umbanda para usá-la
com o objetivo de manipular as massas, causando o desprezo dos que
estavam na oposição ao governo.
Por volta de 1974 os praticantes de Umbanda, declarados e não declarados, foram estipulados em mais ou menos um quarto da população do Brasil.
A partir dos anos 1980,
a Umbanda enfrentou forte oposição das igrejas neo-pentecostais,
interessadas em se expandir e abarcar o maior número possível de fiéis.
Começou o período de intensa decadência da religião. Ao iniciar suas
atividades nos anos 50, a Igreja Evangélica Pentecostal ganhou muitos
seguidores e influência na América Latina.
Os pentecostais tentaram converter, e algumas vezes, perseguiram os
seguidores da Umbanda e outras religiões afro-brasileiras. Alegavam que a
Umbanda seria uma veneração aos demônios, além de prática de magia
negra. Já a incorporação dos Orixás seria uma forma de possessão
demoníaca21 .
Em 2005, no estado de São Paulo, a Umbanda ganhou uma decisão contra um canal de televisão patrocinado pelos pentecostais. O Ministério Público declarou ilegal que programas de televisão se referissem às religiões afro-brasileiras de forma derrogatória e discriminatória.
Ainda
assim, as igrejas pentecostais converteram muitos umbandistas,
especialmente entre as camadas mais desfavorecidas da população. Em
meados dos anos 80, a favela Dona Marta,
no Rio de Janeiro, contava com seis terreiros de Umbanda, um terreiro
de Candomblé e um centro espírita. Surgiram no lugar oito igrejas
neo-pentecostais22 .
Ainda
hoje, apesar de existirem leis que reprimem o preconceito e a
intolerância religiosa, os umbandistas enfrentam grandes preconceitos
por parte da sociedade em geral. A intolerância não perdoa nenhuma faixa
etária ou hierarquia religiosa, atingindo idosos, homens, mulheres e
crianças, não respeitando sequer o principio universal de amor e
compaixão para com o próximo e a total liberdade de crença23 .
Atualmente a Lei 11.635 referendada em 27 de dezembro de 2007 pelo ministro Gilberto Gil e sancionada pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva, estabeleceu o dia 21 de janeiro como o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.
Aponta-se essa data como provável causa da escolha, pois ocorreu o
aniversario de falecimento da Mãe Gilda de Ogum, mãe-de-santo, que
sofreu um infarto fulminante após ver seu nome e imagem atrelados a uma
reportagem do Jornal Folha Universal da Igreja Universal do Reino de Deus em uma matéria intitulada Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes e ter seu terreiro invadido por fiéis neo-pentecostais24 .
No
que diz respeito aos cultos religiosos de matriz afro-brasileiros, a
Umbanda em especial, a grande maioria das pessoas é influenciada pelo
senso comum de que a Umbanda é coisa do mal, primitiva e pagã. Aponta-se
para tal repúdio diversos fatores, porém, o que chama mais atenção é a
crueldade com a qual o Bispo Edir Macedo descreve a Umbanda. Em seu livro publicado pela Editora Gráfica Universal Ltda., no ano de 1990, intitulado Orixás, Caboclos e Guias: Deuses ou Demônios?,
há uma análise preconceituosa, distorcida e ofensiva sobre a Umbanda e
suas entidades. O que chama mais atenção para o conteúdo de tal livro, é
a influencia que exercida sobre os seguidores de tal religião. Ele insufla seus fiéis a serem preconceituosos e a desrespeitar os umbandistas25 .
Edir Macedo é profícuo na publicação de obras polêmicas. No final da década de 80, sua obra Orixás, Caboclos e Guias: Deuses ou Demônios? foi
recolhida por determinação judicial em vários estados brasileiros. A
Justiça entendeu que o objetivo da obra era de propor uma ação
persecutória aos adeptos das religiões de matriz africana, além de
demonizar e reprimir as práticas da referidas religiões. Apesar disso
ainda é possível encontrar a publicação em várias igrejas
neo-pentecostais e na própria sede da IURD26 .
Sendo
assim, fica nítido que o mau exemplo dado por um líder religioso como
Edir Macedo só faz aumentar o preconceito contra as religiões de
matrizes afro, e anula quaisquer possibilidades de erradicar a
intolerância religiosa. Em uma sociedade cujo homem desfruta do livre
arbítrio, o que deve predominar é o respeito à pluralidade e as diversas
formas de manifestações divinas. Episódios tristes diariamente chamam
nossa atenção no que concerne ao preconceito que os adeptos das
religiões afros sentem. Terreiros constantemente são invadidos por fiéis
das igrejas neo-pentecostais da Universal do Reino de Deus. Tal
preconceito reflete nas ruas, nas escolas e em locais públicos como
hospitais27 .
Em janeiro de 2013 a ministra Luiza Barros, de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, declarou que os evangélicos estão mais intolerantes e desejam acabar com as religiões de matriz africana28 .
O legado de Zélio de Moraes
Zélio de Moraes era branco, classe média, e filho de um espírita kardecista. Ele afirma que, em 1920, o espírito que encarnara como o jesuíta Gabriel Malagrita, o Caboclo das Sete Encruzilhadas se revelou a ele e lhe disse que ele seria o fundador de uma nova religião, genuinamente brasileira dedicada a dois espíritos brasileiros: O caboclo e o preto-velho. Ambas essas entidades eram frequentemente rejeitadas e tidas como atrasadas pelos kardecistas. Em meados dos anos 20, Zélio fundou seu primeiro centro de Umbanda e nos anos seguintes vários outros centros de Umbanda foram fundados por iniciativa do seu caboclo que assumira essa denominação porque não haveriam caminhos fechados para mim.
Como
Zélio, os primeiros fundadores de centros de Umbanda eram antigos
kardecistas e de classe média branca. Eles consideravam o Espiritismo
Kardecista inadequado, pois eram médiuns de caboclos e pretos-velhos.
Portanto, adquiriram gosto pelos espíritos africanos e indígenas da Macumba,
os quais acharam muito mais competentes e eficientes que os espíritos
kardecistas para o atendimento e cura de doenças. Além do mais, os
rituais da Macumba eram considerados mais emocionantes que as
sessões pouco ritualizadas do Espiritismo Kardecista. Se os então
kardecistas foram inspirados por certos aspectos da Macumba,
entretanto, repeliram outros, tais quais, os sacrifícios de animais, os
exus, considerados espíritos ruins, além da conduta frequentemente
grosseira e o ambiente social baixo dos centros de Macumba. (Brown
1994: 38-41). É importante frisar que a Tenda Espírita São Jorge, ao
contrário das demais fundadas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas,
sempre realizou sessões de exu, contrariando o ritual estabelecido.
Por seu turno, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, que comumente era chamado O chefe pelos
seus adeptos, nunca permitiu que seu médium recebesse qualquer tipo de
recompensa pelos trabalhos prestados. Portanto, ele nunca exerceu sua
mediunidade como profissão. Trabalhava para sustentar a família e muitas
vezes para manter as tendas fundadas pelo chefe, que dizia quea Umbanda é a manifestação do Espírito para a caridade.
Em 1967,
após 59 anos de atividade junto a Tenda Nossa Senhora da Piedade,
entregou a direção dos trabalhos às filhas Zélia e Zilméia, passando a
viver no distrito de Boca do Mato, emCachoeiras de Macacu, a 160 km do Rio de Janeiro, ao lado de sua esposa Dona Isabel, falecida em 1981,
médium do Caboclo Roxo. Nesse recanto, privilegiado da natureza,
continuou a atender os necessitados do corpo e da alma, na Cabana de Pai
Antonio.
Segundo
suas filhas Zélia e Zilméia, muitas vezes elas precisaram acolher
desabrigados e doentes que seu pai trazia para casa e que de lá só saíam
quando estavam curados. Não raro, ficava sem dinheiro para dar às
pessoas que batiam à sua porta. Depois de 66 anos de mediunidade, Zélio
faleceu no sábado, 3 de setembro de 1975, tendo podido dizer de cabeça erguida:
O
Caboclo das Sete Encruzilhadas nunca determinou o sacrifício de aves e
animais, quer para homenagear entidades, quer para fortificar a minha
mediunidade... Nunca recebi um centavo pelas curas praticadas pelos
guias. O Caboclo abominava a retribuição monetária ao trabalho
mediúnico. Não há ninguém que possa dizer, no decorrer destes 66 anos,
que retribuiu uma cura (e foram aos milhares) com dinheiro.
Ronaldo
Linhares, presidente da Federação Umbandista do Grande ABC, gravou a
última mensagem do Caboclo das Sete Encruzilhadas que na íntegra diz o
seguinte:
Meus
irmãos: sejam humildes. Tragam amor no coração para que vossa
mediunidade possa receber espíritos superiores, sempre afinados com as
virtudes que Jesus pregou na Terra, para que os necessitados possam
encontrar socorro nas nossas casas de caridade. Aceitem meu voto de paz,
saúde e felicidade com humildade, amor e carinho.
Fundamentos
Os fundamentos da Umbanda variam conforme a vertente que a pratique.
Existem
alguns conceitos básicos que são encontrados na maioria das casas e
assim podem, com certa ressalva e cuidado, serem generalizados. São
eles:
- A existência de uma fonte criadora universal, um Deus supremo, pode receber os nomes Zambi, Olorum ou Oxalá. Algumas das entidades, quando incorporadas, podem nomeá-lo de outra forma, como por exemplo Tupã, para caboclos, entre outros, mas são todos o mesmo Deus.
- O compromisso com "a manifestação do espírito para a caridade".29 O que significa que a ajuda ao próximo não ser retribuída em dinheiro ou valor de qualquer espécie.
- Ritual variando pela origem.
- Vestes, em geral, brancas.
- Altar, gongá ou peji com imagens católicas, pretos-velhos, caboclos, baianos, marinheiros e boiadeiros.
- Bases: africanismo, espiritismo, amerindismo, catolicismo.
- Serviço social constante nos centros.
- Magia branca.
- O não sacrifício de animais.
- Batiza, consagra e casa.
- O culto aos orixás como manifestações divinas.
- A manifestação dos guias para exercer o trabalho espiritual incorporado em seus médiuns ou "aparelhos", também chamados de "cavalos".
- O mediunismo como forma de contato entre o mundo físico e o espiritual, manifestado de diferentes formas.
- Uma doutrina, uma regra, uma conduta moral e espiritual que é seguida em cada casa de forma variada e diferenciada, mas que existe para nortear os trabalhos de cada terreiro.
- A crença na imortalidade da alma.
- A crença na reencarnação e nas leis cármicas.
- A Umbanda também se baseia em uma "Carta Magna de Umbanda" discutida e eleita através do Médium Ortiz
Carta
Magna de Umbanda “A Umbanda como religião, tem em seu fundamento como
base a crença em um único Deus (monoteísta), porém sua estrutura se
estende através do panteão de Divindades denominadas de Orixás, com
linhas e sublinhas de espíritos guias. Dando por verdade que a religião
teve as influências das religiões Indígena, Africana, Kardecista e
Católica”. Todas estes aspectos dentro da religião de Umbanda se
sustentam como fonte de atuação através da prática caritativa,
assistencialista e religiosa aos que a ela recorrem. A Umbanda, como
religião, atua na elevação e educação religiosa, praticando apenas
trabalhos de Ordem Luminosa. Entende-se que a religião de Umbanda,
respeitando suas influências, é genuinamente brasileira, com duas
interpretações em sua origem. Primeiro, que ela é milenar em suas
atribuições espirituais em relação a manifestações. Segundo, que se
iniciou através do Médium Zélio Fernandino de Moraes, em 15 de Novembro
de 1908, em Neves, Niterói, através do Caboclo das Sete Encruzilhadas.
A desafricanização da Umbanda
A
cosmologia da Umbanda é dividida em três níveis: o mundo astral, a
terra, e o mundo inferior ou submundo. O mundo astral é presidido por
Deus, e é seguido por várias linhas. Cada uma é guiada por um orixá, que
freqüentemente corresponde a um santo católico. O mundo astral é um lar
hierárquico, onde cada figura religiosa é colocada segundo o seu nível
de evolução espiritual. Nos níveis mais baixos, estão os fundadores
espirituais da Umbanda: os caboclos e pretos-velhos. A Terra constitui a
plataforma para espíritos que experienciam sua encarnação humana em
diferentes níveis de evolução espiritual. Ela é visitada por espíritos
do mundo astral, que são incorporados pelos médiuns nos centros de
Umbanda para ajudar os mais necessitados. O submundo, freqüentemente
denominado Quimbanda, foi anos ligado à magia negra.
Representava uma anti-estrutura da Umbanda. De acordo com essa visão
seria habitado por espíritos que viveram sua encarnação com caráter
extremamente duvidoso, tais quais, prostitutas, malandros e ladrões.
Eram vistos como maus por conta da falta de evolução espiritual. Tais
espíritos podiam subir à Terra para causar danos que tinham de ser
desfeitos pelos espíritos mais evoluídos do astral.
O exu foi elevado à categoria de importante trabalhador da Umbanda. E a Quimbanda como parte da Umbanda, diferenciando-se da Kiumbanda,
na qual os verdadeiros espíritos inferiores, os kiumbas, seriam os
agentes do mal. Os exus, portanto, seriam os responsáveis, não só pela
proteção e vigília do terreiro, como os incumbidos de afastar os maus
espíritos dos consulentes.
Os
especialistas, que focalizam a desafricanização da Umbanda, tem
procurado mostrar como a África e as tradições religiosas
afro-brasileiras são reinterpretadas na sua cosmologia. Na Umbanda os
orixás afro-brasileiros foram marginalizados e tem menos importância que
no Candomblé,
no qual todas em as cerimônias estão concentrados e são incorporados
pelos filhos de santo. Nas cerimônias da Umbanda, os orixás normalmente
são periféricos. Devido à sua posição elevada na hierarquia, eles
permanecem na esfera astral. Porém, raramente são incorporados pelos
médiuns a não ser na forma de falangeiros ou mensageiros. No entanto, em
algumas casas os caboclos e pretos-velhos têm tomado na Umbanda a
posição que os orixás tradicionalmente ocupam no Candomblé.
Desde
o século XIX, existe uma tradição oral e escrita referente às figuras
do caboclo e do preto-velho. O caboclo é geralmente descrito como o
representante de um indígena inculto, selvagem e orgulhoso que se tornou
símbolo da antiga idade do ouro do Brasil. Já o preto-velho é o
representante do escravo africano. Tem sido enfatizado que apesar das
diferenças, ambos são marcados pelo processo de aculturação e
civilização, além de partilhar a experiência histórica comum de terem
sido escravizados. A substituição dos orixás pelos pretos-velhos é
interpretada como uma expressão do estrangeiro, África, sendo
substituído pelo elemento nacional, Brasil. A substituição dos orixás
orgulhosos e livres pelos pretos-velhos e escravos também tem sido
concebida como um símbolo da transformação da África, de ter sido livre
na África e se tornado escravo no Brasil. Essa substituição tem sido
vista como uma instância de sua aculturação, domesticação e
embranquecimento da identidade africana na sua transformação em
identidade afro-brasileira e nacionalidade brasileira (Brown 1994: 37-38).
O
brincalhão exu, que entre outras coisas representa o mensageiro dos
orixás no Candomblé, é outra figura africana e afro-brasileira que foi
reinterpretada e marginalizada inicialmente na Umbanda. Exu foi
associado com o demônio antes da fundação da Umbanda. Nessa religião,
entretanto, essa figura maligna foi complementada. Exu era considerado o
representante do demônio, do perigo e da imoralidade. Por causa dessas
peculiaridades, os primeiros umbandistas associaram exu com africanos e
escravos rebeldes. Exu foi portanto segregado da Umbanda, e se tornaria o
legislador da Quimbanda, do submundo. A mudança sobre a figura de exu
sofreria mudanças positivas com o passar das décadas.
Outra
reinterpretação umbandista já ultrapassada inseria exu na ordem
evolucionista de precedência conforme o modelo kardecista. Era relegado a
um espírito menos evoluído que precisava evoluir para se tornar um
espírito bom. Alguns umbandistas ainda distinguem o exu pagão e o
batizado, que se submeteu à doutrinação e encontrou o caminho certo da
escalada da evolução. Esta distinção reflete algo do caráter original
ambivalente de exu, apesar do rito de passagem do batismo, que define a
distinção que é certamente novo. Novamente este batismo do Exu pagão tem
sido interpretado como uma expressão e aculturação e domesticação do
mal, do perigo e da imoralidade (Ortiz 1991: 137-144).
Culto aos orixás
a Umbanda os orixás não incorporam, são periféricos, devido à sua posição elevada na hierarquia, eles permanecem na esfera astral. Porém, raramente são incorporados pelos médiuns a não ser na forma de falangeiros ou mensageiros. No entanto, em algumas casas os caboclos e pretos-velhos têm tomado na Umbanda a posição que os orixás tradicionalmente ocupam no Candomblé. Normalmente os orixás cultuados são Oxalá, Omolu, Iemanjá, Oxum, Nanã Buruquê, Oxóssi, Xangô, Ogum e Iansã.
Orisha é um termo yorubano que designa um ser sobre-humano ou um deus30 . Sobre os orixás é considerado que são manifestações do Grande Deus, Olorum, criador de tudo.
Todo o universo surge de Olorum através
das radiações que são individualizadas e personificadas em orixás. As
emanações da água, por exemplo, podem ser subdivididas em Oxum, água doce,Nanã, pântano, e Iemanjá, mar. Ocorre associação semelhante com Ossain e Oxóssi no que tange à irradiação do reino vegetal. Portanto, cada orixá é considerado uma manifestação antropomorfizada dos elementos da natureza.
Por
ocasião do tráfico negreiro e comércio de escravos no Brasil, negros de
tribos diferentes foram misturados. Portanto, os diversas orixás de
tribos distantes se encontraram em terras brasileiras e formaram o
grande panteão do Candomblé.
Nessa
visão, ainda própria dos ritos tribais, o orixá era um ancestral que os
integrantes tribais localmente tinham em comum. Geralmente era o
próprio fundador da tribo e deixava grande influência por suas
características incomuns de liderança, poderes espirituais e
habilidades. A tribo tinha no orixá um símbolo da união, pois todos eram
filhos diretamente desse grande ancestral.
Os
orixás, na Umbanda, se entrelaçam nas linhas de cultivo, que apresentam
muita controvérsia em suas denominações e divisões, às quais abrangem
reinos e falanges, de tal modo que não há uma unidade de entendimento,
sendo geralmente distribuídas Sete Linhas encimadas pela Linha de Oxalá,
sobre o que não há dúvida. Mais complexas se tornam as divisões em
reinos e falanges, pois cada praticante procura explicar a seu modo e
defender o seu ponto de vista, mesmo que esteja em desacordo com os
demais. O orixá, pela sua vibração, influi na sua falange, dentro de sua
linha em um mensageiro ou falangeiro que se manifesta nos terreiros de
Umbanda.
Sincretismo
A Umbanda é uma junção de elementos africanos (orixás e culto aos antepassados), indígenas (culto aos antepassados e elementos da natureza), católicos (o europeu, que trouxe o cristianismo e seus santos que foram sincretizados pelos negros Africanos), Espiritismo (fundamentos espíritas, reencarnação, lei do carma, progresso espiritual).
A
Umbanda prega a existência pacífica e o respeito ao ser humano, à
natureza e a Deus. Respeitando todas as manifestações de fé,
independentes da religião. Em decorrência de suas raízes, tem um caráter
eminentemente pluralista, compreende a diversidade e valoriza as
diferenças. Não há dogmas ou liturgia universalmente adotadas entre os
praticantes, o que permite uma ampla liberdade de manifestação da crença
e diversas formas válidas de culto.
Seu principal lema é dar de graça o que de graça receber com amor, humildade, caridade e fé.
Há
discordâncias sobre as cores votivas de cada orixá conforme a região do
Brasil e a tradição seguida por seus seguidores. Da mesma forma quanto
ao santo sincretizado a cada orixá. Normalmente o sincretismo religioso
de orixá e santo católico é feito da forma abaixo.
Alguns exemplos:
- Exu - Santo Antonio, no Rio de Janeiro, chamado de Bará, no Rio Grande do Sul.
- Ogum - São Jorge, principalmente no centro-sul do Brasil e Santo Antonio, na Bahia.
- Oxóssi - São Sebastião, principalmente no centro-sul do Brasil, e São Jorge, na Bahia.
- Xangô - São Jerônimo, São João Batista e São Miguel Arcanjo.
- Iemanjá - Nossa Senhora dos Navegantes e Nossa Senhora da Glória e Nossa Senhora da Conceição - São Paulo.
- Oxum - Nossa Senhora de Aparecida e em poucos lugares Nossa Senhora da Conceição.
- Iansã - Santa Bárbara.
- Omolu - São Roque e São Lázaro.
- Nanã - Sant'Anna.
- Ibeji - Cosme e Damião.
- Oxalá - Jesus Cristo.
- Zambi ou Olorum - Deus.
O culto umbandista
A Umbanda tem como lugar religioso o templo, centro, tenda ou terreiro, o local no qual os umbandistas se encontram em sessões, giras ou cultos para promover atendimentos espirituais por meio da incorporação dos seus guias e entidades.
O
chefe é o pai ou mãe de santo, mais correntemente chamado de sacerdote
umbandista. São os médiuns mais experientes e com maior conhecimento,
normalmente fundadores do templo. São quem coordenam as giras e que irão
incorporar o guia-chefe, que comandará a espiritualidade e a
materialidade durante os trabalhos.
Como uma religião espiritualista, a ligação entre os encarnados e os desencarnados se faz por meio dos médiuns.
Na
umbanda existem várias classes de médiuns, de acordo com o tipo de
mediunidade. Normalmente há os médiuns de incorporação, que irão
"emprestar" seus corpos para os guias.
Há
também os ogãs que transmitem a vibração da espiritualidade superior
por via do som dos atabaques e das curimbas ou pontos cantados, criando
um campo energético favorável à atração de determinados espíritos, sendo
muitas vezes responsáveis pela harmonia da gira.
Há
os cambonos que são os que comandam os cânticos e as cambonas que são
encarregadas de atender às entidades, provisionando todo o material
necessário para a realização dos trabalhos.
Embora
caiba ao sacerdote ou à sacerdotisa responsável o comando vibratório do
rito, grande importância é dada à cooperação e ao trabalho coletivo de
toda a corrente mediúnica.
De forma geral, as entidades que são incorporadas pelos médiuns são os guias: pretos-velhos, caboclos, crianças, boiadeiros, marinheiros, baianos, orientais, mineiros e ciganos. Nas sessões de Quimbanda: exus, pombagiras e malandros (no caso específico do Rio de Janeiro).
As sessões de Umbanda
O culto nos terreiros geralmente é dividido em sessões de desenvolvimento e de consulta e são subdivididas em giras.
Nas
sessões de consulta o consulente terá o atendimento da entidade de
acordo com a gira em vigor já pré-estabelecida em calendário, como as de
pretos-velhos, caboclos, exus, marinheiros, baianos e ciganos. As
pessoas conversam com as entidades a fim de obter ajuda e conselhos para
suas vidas, curas, descarregos, e problemas espirituais diversos.
As ocorrências mais comuns nessas sessões são o passe e o descarrego. No passe,
a entidade reorganiza o campo energético astral da pessoa,
energizando-a e retirando toda a parte fluídica negativa que nela possa
estar. Já o descarrego é feito com o auxílio de um médium, o qual irá
captar a energia negativa da pessoa e a transferir para os assentamentos
ou fundamentos do terreiro que contém elementos dissipadores dessas
energias. Também a entidade faz com que essa energia seja deslocada para
o astral. Caso haja um obsessor, o espírito obsidiador é retirado e
encaminhado para tratamento ou para um lugar mais adequado no astral
inferior, caso ele não aceite a luz que lhe é dada. Nesses casos pode
ser necessária a presença de uma ou mais entidades para auxiliar na
desobsessão.
Nos
dias de consulta há o atendimento da assistência, o conjunto de pessoas
que procura o terreiro para atendimento. Nos dias de desenvolvimento há
as giras mediúnicas, fechadas, nas quais há estudos e aprimoramento dos
novos médiuns.
Médiuns
Médium é toda pessoa que, segundo a doutrina espírita, tem a capacidade de se comunicar com entidades desencarnadas ou espíritos, seja pela mecânica da incorporação, pela vidência (ver), pela audiência (ouvir) ou pela psicografia (escrever movido pela influência de espíritos).
A
Umbanda crê que o médium tem o compromisso de servir como um
instrumento de guias ou entidades espirituais superiores. Portanto, deve
se preparar através do estudo, para desenvolver a sua mediunidade,
sempre prezando sua elevação moral e espiritual, a aprendizagem
conceitual e prática do bem, do respeito aos guias e orixás, além da
assiduidade e compromisso com sua casa, a caridade em seu coração, amor e
fé em sua mente e espírito, e saber que a Umbanda deve ser vivenciada
no dia a dia, não apenas no terreiro.
Uma
das regras básicas da Umbanda é que a mediunidade não deve ser algo que
envaideça o seu médium. Trata-se de um dom concedido que na realidade
não lhe pertence para fins de resgate cármico e expiação de faltas
pregressas antes de sua reencarnação. Por isso, nenhum tipo de
mediunidade deve ser encarado como fardo ou como meio de ganhar
dinheiro, mas como uma oportunidade valiosa para praticar o bem e a
caridade.
Existem
médiuns que se perdem no caminho da vaidade e do deslumbramento
passando a agir de forma leviana. O médium deve conceber sua mediunidade
como um meio de caridade e de amor ao próximo. Ter um comportamento
moral e profissional dignos e ser honesto e íntegro em suas atitudes é
uma obrigação. Caso contrário, atrairá forças negativas, obsessores ou
espíritos não evoluídos que vagam pelo mundo espiritual na busca de
encarnados desequilibrados que estejam na sua faixa vibracional. Por
isso, o desenvolvimento da mediunidade é um processo que deve ser
encarado de forma séria e vivenciado através de um profundo estudo da
religião através de seus conceitos morais e éticos.
O
médium deve fazer uso, sempre que necessário, dos banhos de descarga
adequados aos seus orixás e guias, estar pontualmente no terreiro com
sua roupa sempre limpa e recorrer ao chefe espiritual do terreiro quando
tiver alguma dúvida ou problema espiritual ou material.
Uma grande parte dos centros ainda utiliza as obras espíritas codificadas por Allan Kardec,
mas no decorrer do tempo houve uma proliferação de obras sobre várias
vertentes de Umbanda. As listas de discussão e rede sociais da internet
também têm contribuindo para a divulgação mais coesa da diversidade e da
pluralidade existentes na religião.
O não sacrifício ritual de animais
A Umbanda não recorre aos sacrifícios de animais para assentamentos vibratórios dos orixás, tampouco realiza ritos de iniciação para fortalecer o tônus mediúnico com sangue. Não tem nessa prática legítima de outros cultos, recursos de oferta às divindades. A fé é o principal fundamento religioso da Umbanda, assim como em outras religiões.
Suas
oferendas se diferenciam das demais por serem isentas de sacrifícios de
animais pelo fato de preconizarem o amor universal e, acima de tudo, o
exercício da caridade como reverência e troca energética junto aos
orixás e seus enviados, os guias espirituais. É incompatível ceifar uma
vida e fazer a caridade, que é a essência do praticar amoroso que
norteia a Umbanda.
Paramentos
Na Umbanda os médiuns usam normalmente como paramentos apenas roupas brancas, podendo estar os pés descalços, o que representa a simplicidade e a humildade, atributos comumente aludidos ao culto.
Há
vertentes que optam pelas cores do orixá homenageado ou guia. É
possível que em determinadas casas uma preta-velha solicite uma saia ou
um lenço para amarrar os cabelos, ou vista uma roupa diferente da
habitual. Em alguns terreiros são permitidos determinados apetrechos
para os guias. Os caboclos costumam utilizar cocares, machadinhas de
pedra ou chocalhos. Alguns terreiros concebem a ideia de que nas giras
de exu as roupas podem ser pretas e vermelhas. O ritual é variável de
acordo com a orientação espiritual da casa e de seu sacerdote.
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