ATOS DO CANDOMBLÉ.
O candomblé é uma religião que
teve como princípio a necessidade de passar seus fundamentos através da fala,
não havendo nada escrito que pudesse esclarecer com riqueza os belíssimos atos
ou cerimônias existentes. O fundamento era adquirido somente com a convivência
da vida cotidiana de uma roça de candomblé. Como nossa memória é dotada de
falha, entendemos que parte destes fundamentos possa ter se perdido com o passar
dos tempos.
Abaixo descrevemos alguns dos
principais atos ou cerimônias do candomblé, como segue:
IPADE
O Ipade é um ritual que
antecede qualquer ritual do candomblé, normalmente conhecido pelos adeptos como
o ato de despachar exu. Eu, Babalorixá Sérgio T´Odé não concordo com este termo,
mas sim digo que é o ato onde rezas são feitas em uma determinada seqüência para
o orixá Exú com o intuito de proteger a casa de candomblé e as pessoas.
Este ritual costuma ser
realizado no período da tarde (exceto na cerimônia de Axexe) antes da chegada
dos visitantes para a Festa de Candomblé.
São utilizadas algumas comidas
ritualísticas, como o Pade de Exu (para saber mais sobre comida de santo,
consulte este ícone em nosso portal), água e vela.
Aqui podemos chamar a atenção,
pois há uma confusão do emprego da palavra Pade. Pade é a comida do orixá que
também é utilizada no ato de Ipade, que é o ritual de colocar o exu como
guardião do axé.
Após um ritual de dança e
cânticos, os padés, a quartinha com água e a vela são levados para fora do
barracão. Somente após este ritual, pode-se dar continuidade aos demais
rituais.
XIRE OU SIRE:
Xire é o ato de convidar todos
os orixás a participarem da festa do candomblé. Seu significado em português é
brincar.
No xiré os orixás serão
reverenciados através de cânticos específicos e em idioma africano (ioruba). Com
relação a alguns acharem que deveríamos ter cânticos em português, eu costumo
dizer que já existe uma religião que cultua divindades em nosso idioma, que é a
Umbanda.
Informamos que existem cânticos
específicos a determinados orixás dentro do xiré que os convida a participarem
da festa. Neste momento, os orixás começam a incorporarem seus filhos.
RUM DOS ORIXÁS.
A última parte da festa
religiosa é o rum dos orixás, quando estes vestidos com suas roupas de gala e
devidamente utilizando seus paramentos fazem atos em suas danças contando suas
lendas.
BORI
O bori é um ritual que
conhecemos como dar comida a cabeça. Esta expressão deve-se ao significado de bo
+ ori onde bo é comida ou oferenda e ori é a cabeça.
Na Africa o ori tem a mesma
importância que um orixá. Ori é o Orixá mais importante de nossa cabeça.
Portanto não devemos fazer nada sem antes cuidar do ori.
O ritual do Bori é muito
complexo e por tratar-se de fundamento não o detalharei neste documento.
Basicamente podemos dizer que
este ritual serve para quem vai iniciar-se na religião, quem necessita tomar
grandes decisões, tirar o negativo, apaziguar o irá dos orixás, até para quem
busca a paz ou harmonia interior, entre outras diversas possibilidades.
Abaixo transcrevemos a matéria
retirada da Revista Orixás:
BORI
(Uma iniciação à religião, sem a qual
nenhum noviço pode passar pelos rituais e passagem, ou seja, pela
iniciação ao sacerdócio)
Da fusão da palavra bó, que em ioruba significa
oferenda, com ori, que quer dizer cabeça, surge o termo bori, que
literalmente traduzido significa “ Oferenda à Cabeça”. Do ponto de
vista da interpretação do ritual, pode – se afirmar que o bori é uma
iniciação à religião, na realidade, a grande iniciação, sem a qual
nenhum noviço pode passar pelos rituais de raspagem, ou seja, pela
iniciação ao sacerdócio. Sendo assim, quem deu bori é ( Iésè órìsà
).
Cada pessoa, antes de nascer escolhe o seu ori, o seu
princípio individual, a sua cabeça. Ele revela que cada ser humano é
único, tendo escolhido suas próprias potencialidades. Odu é o
caminho pelo qual se chega à plena realização de orí, portanto não
se pode cobiçar as conquistas do outro. Cada um, como ensina
Orunmilá – Ifá, deve ser grande em seu próprio caminho, pois, embora
se escolha o ori antes de nascer na Terra, os caminhos vão sendo
traçados ao longo da vida.
Exu, por exemplo, nos mostra a encruzilhada, ou seja,
revela que temos vários caminhos a escolher. Ponderar e escolher a
trajetória mais adequada é tarefa que cabe a cada ori, por isso o
equilíbrio e a clareza são fundamentais na hora da decisão e é por
meio do bori que tudo é adquirido.
Os mais antigos souberam que Ajalá é o orixá funfun responsável pela criação de ori. Dessa forma, ensinaram – nos que
Oxalá sempre deve ser evocado na cerimônia de bori. Yemanja é a mãe
da individualidade e por essa razão está diretamente relacionada a
orí, sendo imprescindível a sua participação no ritual.
A própria cabeça é síntese de caminhos entrecruzados. A
individualidade e a iniciação (que são únicas e acabem, muitas
vezes, se configurando como sinônimos) começam no ori, que ao mesmo
tempo apota para as quatro direções.
OJUORI – A TESTA
ICOCO ORI – A NUCA
OPA OTUM – O LADO DIREITO
OPA OSSI – O LADO ESQUERDO
Da mesma forma, a Terra também é dividida em quatro
pontos: norte, sul, leste e oeste; o centro é a referencia, logo
toda pessoa deve se colocar como o centro do mundo, tendo à sua
volta os pontos cardeais: os caminhos a escolher e seguir. A cabeça
é uma síntese do mundo, com todas as possibilidades e contradições.
Na África, ori é considerado um deus, alias, o primeiro
que deve ser cultuado, mas é também, junto com o sopro da vida (emi)
e o organismo (ese), um conceito fundamental para compreender os
ritos relacionados a vida, como axexê (asesé). Nota – se a
importância desses elementos, sobretudo o ori, pelos oriquis com que
são evocados:
O bori prepara a cabeça para que o orixá possa manifestar – se
plenamente. Há um provérbio nagô que diz: Orí buru kó si orisá. É o
bori que torna a cabeça ruim não tem orixá. É o bori que torna a
cabeça boa. Entre as oferendas que são feitas ao ori algumas merecem
menção especial. É o caso da galinha – d’angola, chamada nos
candomblés de etum ou konkém, que é o maior símbolo de individuação
e representa a própria iniciação. A etun é adoxu (adosú), ou
seja, é feita nos mistérios do orixá. Ela já nasce com exu, por isso
relaciona – se com começo e fim, com a vida e a morte, por isso está
no bori e no axexê.
O peixe representa as potencialidades, pois a imensidão
do oceano é a sua casa e a liberdade o seu próprio caminho. As
comidas brancas, principalmente os grãos, evocam fertilidade e
fartura. Flores, que aguardam a germinação, e frutas, os produtos da
flor germinação, simbolizam fartura e riqueza.
O pombo branco é o maior símbolo do poder criador,
portanto não pode faltar. A noz cola, isto é, o obi é sempre o
primeiro alimento oferecido a ori; é a boa semente que se planta e
espera – se que dê bons frutos.
Todos os elementos que constituem a oferenda à cabeça
exprimem desejos comuns a todas as pessoas: paz, tranqüilidade,
saúde, prosperidade, riqueza, boa sorte, amor, longevidade, mas cabe
ao ori de cada um eleger prioridades e, uma vez cultuado como se
deve, proporciona-las aos seus filhos.
NUNCA SE ESQUEÇA: ORIXÁ COMEÇA COM ORI.
FONTE: REVISTA ORIXÁ
BATISADO E CASAMENTO
Assim como as outras religiões
o Candomblé também tem rituais de batismo e casamento. Percebemos que estes não
são muito comuns em nossa comunidade, mas esperamos com esta informação, plantar
uma pequena semente que possa reverter este quadro e futuramente vermos mais
desses atos em nossa linda religião.
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